Quarta-feira, Janeiro 04, 2012

Minissaia



Tem uma música brega tocando sem parar na minha cabeça, posso ouvir aquela voz chorosa e até a platéia cantando junto: é um dos males desnecessários que alimentamos pra poder reclamar depois. ‘Tanta coisa boa desconhecida!’ ‘Tanta coisa antiga esquecida!’ E eu aqui reverberando mentalmente uma coisa que deve ser trilha sonora no inferno. Mas continuo.

No caso da música, eu consigo pensar em um trilhão de motivos aceitáveis e externos a mim pra justificar um comportamento assim – incoerente, infantil, vulnerável, completamente susceptível à moda, prestes a mudar ao sabor das novas tendências; mas que também é super in, ou, como diria minha mãe, tá na crista da onda.

Aí, muito presa a detalhes, fico cá me perguntando onde terá fenecido aquela história toda de autonomia, de liberdade e tudo mais. Por que escolher sempre mais, mais e mais do mesmo? E aquele clichê sobre percorrer um caminho já percorrido pra chegar a um lugar já conhecido? E todas essas bobagens que falamos, mas que sequer chegam perto quando é hora de escolher qualquer coisa?

É, tudo bobagem. A música brega da moda. A ecologia da moda. O site de relacionamento da moda. A moda descolada e retrô da moda... A moda engole o bom senso sem nem mastigar. Ela dura só o tempo necessário pra transformar as sinapses cerebrais mais profundas até dos mais céticos, e aí ela pode mudar de novo. Tudo que está na moda tem uma pré-aprovação externa e a expectativa da sensação de bem estar lícito e adequado. A repetição tem essa característica - tanto a repetição coletiva, que significa segurança para os que aderem individualmente, quanto as repetições circunstanciais da vida, dos amores, amizades, sentimentos e bla.

Essas minissaias invisíveis que vestimos alguma vez na vida e aprendemos que são as culpadas por olhares de atenção, ou carinho, ou aproximação, e também por decepções e banhos de água fria. Essas malditas minissaias reaparecem por aí, surgem das pessoas e dos bueiros, do ar e das entranhas, e ficam carimbando nossas histórias a ponto de parecer que é tudo tão previsível que nem tem mais graça. Só a gente sabe que elas só se desmascaram depois, pois sempre encontramos em modelos e cores diferentes.

Sabe aquele “tipo” de pessoa que é irresistível? Aqueles problemas que dão sentido à sua vida? Aqueles defeitos invencíveis? Aquela briga eterna com as mesmas coisas de sempre? Então, são as suas minissaias. Elas podem ser bregas como a música, você pode odiar e criticar cada pedacinho, mas sempre volta a escolher essas beneditas porque são elas – e apenas elas – que te levam exatamente aonde é seguro. Pode ser incômodo, enjoativo e deprimente, mas é seguro.

O que fazer? Eu não disse que sabia. Estou aqui me lembrando de todas as estampas e tamanhos das minhas minissaias. Sou muito escrava delas. Minha liberdade inexiste perto delas. Minha minissaia da procrastinação é xadrex. A outra, da impulsividade e das dúvidas é roxa. Aquela da paixão súbita por cafajestes é rosa-bebê e a outra das tentativas frustradas de paixão pelos “bonzinhos” é cinza. Tenho uma preta também, dos meus momentos de introspecção e criatividade. Aquela de bolinhas, dos meus amigos e das minhas festas, e que representa minhas tendências dionisíacas, é uma das favoritas! A transparente, que guardo escondida, é a dos meus sentimentos e das sensações mais afloradas. Tem uma rodada, bem suave, que é dos meus sonhos. As outras, desbotadas e rotas, que uso demais, nem quero comentar.

Falando em minissaia, qual você está usando hoje?